quinta-feira, 11 de abril de 2013

Vamos falar de Emily Brontë - Parte 1

As irmãs Charlotte (1816-1855), Emily (1818-1848) e Anne Brontë (1820-1849) cresceram - ao lado do irmão Branwell - no remoto vilarejo rural de Haworth, em Yorkshire. O ambiente, segundo Charlotte escreveu mais tarde ao recordar a infância, tinha poucos atrativos para as crianças:


Dependíamos totalmente de nós mesmos e uns dos outros, dos livros e do estudo para encontrar diversões e ocupações na vida. O estímulo mais elevado, bem como o prazer mais vivo, que conhecemos da infância em diante residia em nossos primeiros esforços na composição literária.

A pacata vida no campo e a ausência de companhias, no entanto, eram de certa forma compensadas pelo grande incentivo à fantasia que recebiam na biblioteca do pai, onde desfrutavam de uma uma liberdade rara - em pleno século XIX - na escolha das leituras: tinham acesso a praticamente todos os livros, e a única proibição recaía justamente sobre as "histórias de amor volúveis" das revistas femininas - o que deixa claros os pendores literários de Patrick Brontë, que além de chefe da família era autor de obras em prosa e verso. Assim, as crianças tiveram acesso desde cedo não apenas a clássicos como as Fábulas de Esopo ou As Mil e uma noites, mas também a certos autores capazes de provocar desconforto nos sensíveis gostos vitorianos - como Shakespeare, Wordsworth e Byron, entre muitos outros. A curiosidade e o livre acesso aos livros chegaram a tal ponto que pelo menos Charlotte teve a oportunidade de ler alguns dos temíveis "romances franceses" que tanto atentavam contra o recato das moças na época.
A história do amadurecimento literário das crianças parece um conto de fadas: em 1826, Patrick deu ao filho Branwell um conjunto de doze soldadinhos de chumbo. As crianças escolheram nomes para os brinquedos e, a partir de então, começaram a criar e encenar histórias usando-os como personagens. Logo as encenações improvisadas deram lugar a peças teatrais, e três anos depois o script das histórias e das peças passou a ser registrado em minúsculas folhas de papel, que a seguir eram encadernadas em livros.
Em 1845, passados vários anos durante os quais os quatro dedicaram-se a escrever as sagas de Gondal e Angria - mundos imaginários em que misturavam elementos ficcionais e fantásticos a personagens e eventos históricos e políticos reais -, Charlotte um dia descobriu, por acaso, "um volume de versos na caligrafia da irmã". Impressionada com a qualidade dos poemas e tomada por "uma profunda convicção de que aquelas não eram efusões comuns", mencionou a descoberta a Emily, a autora dos versos - que, sempre muito discreta, reagiu com desagrado a esta invasão de privacidade. Mesmo assim, alguns dias mais tarde Charlotte a havia convencido de que os versos eram dignos de figurar em um livro; e, ao perceber a satisfação de Charlotte com a descoberta, Anne também resolveu mostrar-lhe os versos que tinha na gaveta. O resultado veia à luz em maio do ano seguinte: um volume de poemas escrito a seis mãos e publicado, a pedido de Emily, sob os andróginos pseudôminos de Currer, Ellis e Acton Bell.
As vendas foram pífias, mas o livro recebeu algumas críticas favoráveis - um incentivo que, em abril do mesmo ano, levou "Currer", "Ellis" e "Acton" a oferecer aos editores "uma obra de ficção, consistindo de três narrativas distintas e independentes, que pode ser publicada como uma obra em três volumes, qual os romances convencionais, ou em separado, como volumes avulsos, conforme seja mais conveniente”. A estratégia das irmãs consistia em oferecer O professor de Charlotte, O Morro dos Ventos Uivantes de Emily e Agnes Grey de Anne no formato conhecido como three-decker – os três volumes em que muitos romances do século XIX eram corriqueiramente divididos e comercializados a fim de assegurar maior circulação nas bibliotecas. A proposta foi rejeitada, mas as irmãs não perderam o ânimo e contataram vários outros editores até que Thomas Newby dispôs-se a publicar as obras de Emily e Anne – recusando, porém, O professor de Charlotte.
Com o aceite dos romances escritos pelas irmãs, Charlotte continuou sozinha em busca de um editor interessado em O professor. Não obteve o sucesso esperado, mas recebeu do editor George Smith uma carta que, embora trouxesse uma recusa.
Discutia os méritos e deméritos [da narrativa] com tanta cortesia, tanta consideração, em uma veia tão racional e segundo critérios tão esclarecidos que a própria recusa entusiasmou o autor mais do que o teria feito um aceite expresso em termos vulgares.
Smith acrescentou que, se Charlotte viesse a escrever um romance em três volumes, gostaria de ler o manuscrito. Como já estivesse trabalhando em Jane Eyre, dentro de um mês ela tratou de dar os toques finais no livro e enviá-lo à apreciação do editor, que o publicou em outubro de 1847. As obras de Emily e Anne chegaram ao público em dezembro do mesmo ano.

Nos vemos na segunda parte.
Até mais!
Paulo Henrique


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